segunda-feira, 21 de abril de 2014

O CANTO DO CEGA REGA



PAÍS DE ORIGEM: GUATEMALA

Este é um conto antigo, tão antigo quanto o canto do cega-rega! E olhe que desde que o mundo é mundo que ouvimos o canto do cega-rega. É uma história de amor. Uma história de amor tão triste, que é por isso que o cega-rega canta primeiro baixinho, depois mais forte, até arrebentar.
Ah, esse cega-rega, tão apaixonado! Por isso podemos ouvi-lo nas noites de luar, com sua cantilena chocha, sempre a mesma lenga-lenga, cantando no mato junto com as rãs.
Mas vamos ver agora como foi que o cega-rega se apaixonou! Este animalzinho é um inseto boêmio e, desde que Deus o criou, dedicou-se a sair todas as noites a cantar para a Lua, quietinho num galho de ipê. Levantava as antenas para o céu e começava a cantar uma canção com aroma de estrelas e de boa-noite.
Os grilos viviam dizendo:
—  Como canta bem esse danado! Se não tomarmos cuidado, ele vai roubar as nossas namoradas.
— Será que ele está apaixonado? — perguntava uma rolinha vermelha à amiga, a rolinha cor de laranja.
—  Vai saber! Mas que ele é um ótimo cantor, isso eu sei que ele é!
—  É que ele quer arranjar uma namorada! — gritou a Lua de lá de cima, sorrindo.
— Sim, Lua, mas por mais que eu cante não aparece nenhuma garota bonita que queira casar-se comigo — respondeu o cega-rega, lá do seu galho de ipê.
—  O que é isso! Você está cheio de admiradoras! — respondeu-lhe a Lua, piscando para ele. — O que acontece é que elas não são como você.
—  Não são como eu? Claro que são! Todas elas são insetos de seis patas! E eu tenho seis... — disse o cega-rega, contando as suas patas para ver se não se enganara.
—  As patas não valem. O que vale é o coração. O coração da sua namorada deverá cantar no ritmo do seu — retrucou a Lua. — Bem, e agora deixe-me empoleirar lá no alto que já é quase meia-noite.
E dizendo isso, a Lua, de um só salto, pulou para as alturas do céu.
O cega-rega ficou pensando, pensando: ”Então minha namorada terá que ter um coração cantador como o meu? Cada coisa que passa pela cabeça da Lua!”.
Ficou a noite toda fazendo uma lista de insetinhas que conhecia: “A vespa? Não, essa não, porque em lugar de cantar, zumbe. A viúva-negra? Não pode ser. Essa aranha nem sequer canta. A carrapatinha? Menos ainda! Essa grudaria em mim e nem me deixaria cantar...”.
O Sol saiu com suas bochechas de gringo e encontrou o cega-rega dormindo como uma pedra, ao lado da lista de possíveis namoradas.
—  Psiu! Não façam barulho! — recomendou aos pássaros, franzindo sua bocona vermelha. — A Lua me contou que o cega-rega não pregou o olho a noite inteira, e se nós o acordamos agora, ele não vai cantar com vontade quando escurecer.
Todo o bosque guardou silêncio para velar o sono do cega-rega. Todos respeitaram. Todos, exceto uma insetinha atrevida que chegou do outro lado do rio.
—  Cega-rega, cega-rega, cega-rega! — cantava ela com voz cheia.
— Cale a boca, forasteira, que o nosso cantor está dormindo depois de passar a noite em claro, e assim você vai acordá-lo! — gritam todos os bichos, muito zangados pelo alvoroço que a estranha vinha fazendo.
—  Cega-rega, cega-rega, cega-rega! — insistiu a insetinha, batendo as asas rapidamente, até pousar no galho de ipê onde dormia o cega-rega casadouro. Este, com o escândalo, acordou num instante.
—  Cega-rega? — perguntou à insetinha forasteira, espreguiçando-se. — O que é cega-rega?
—  Cega-rega é você e sou eu! — respondeu-lhe a pequena estranha, enquanto exalava um perfume desconhecido para o jovem cega-rega, que o fez tremer da cabeça aos pés. — Você não canta como eu: “cega-rega, cega-rega, cega-rega”? — perguntou-lhe a desconhecida.
—  Não. Eu cantava canções para a Lua, mas de agora em diante vou cantar como você, porque o seu canto é uma festa! — respondeu o jovem entusiasmado.
Então a insetinha lhe fez a seguinte proposta:
—  Vamos voar até o capim que cresce à beira do rio?
O cega-rega mais do que depressa levantou voo atrás dela, e os dois pousaram num talinho de capim-de-burro.
—  Mais que coisa! Então você não sabia que é um cega-rega como eu? — perguntou-lhe a jovem, muito brejeira.
—  É, não sabia, não! Mas agora eu sinto que o meu coração bate no compasso da sua canção! Por que não cantamos?
Então deram-se as patinhas e, olhando-se nos olhos, entoaram a duas vozes a canção que todos nós conhecemos: “cega-rega, cega-rega, cega-rega!”.
Como vocês podem imaginar os dois não tinham olhos nem ouvidos para mais ninguém. Abraçados, cantaram o dia todo e até se esqueceram de almoçar. Ao entardecer, o cega-rega disse à sua amada:
—  Nós estamos apaixonados! Que tal a gente se casar hoje à noite? Assim você vem viver deste lado do rio junto comigo e a gente pode cantar todos os dias.
—  Sim, cega-rega! Claro que eu quero me casar com você hoje mesmo! Vou voando até o outro lado do rio contar aos meus amigos que vamos nos casar. Mas eu volto antes que a Lua esteja alta — respondeu a insetinha, emocionada. E selaram o compromisso com um roçar de antenas.
Enquanto isso, os insetos do bosque estavam loucos da vida.
— Essa chata do outro lado do rio veio ensinar ao nosso cantor essa musiquinha boba que diz: “cega-rega, cega-rega, cega-rega”. Eu não gosto nem um pouco. O que a gente poderia fazer? — observou uma minhoca, pondo a cabeça de fora por um buraquinho.
—  Eu acho que devemos impedir esse casamento! — disse uma mariposa.
— Eu concordo! Mas como? — perguntou um mosquito.
— Isso é fácil! — respondeu uma aranha bem pernóstica. — Eu posso tecer uma teia pegajosa no galho do sapotizeiro que pende para a outra margem do rio. Como essa passagem é obrigatória para voar para este lado do rio, a cega-rega terá que passar por ali e ficará presa em minha teia antes que possa dar um pio. Assim, o nosso cantor não vai saber por que ela não voltou para casar-se com ele, pois só a deixaremos livre muito tempo depois. O que vocês acham da minha ideia?
—  É ótima, estamos de acordo! — responderam em coro todos os insetos do bosque.
—  Muito bem — disse a aranha —, então mãos à obra. E dirigiu-se ao sapotizeiro a passos largos.
Enquanto isso, o noivinho cega-rega cantava muito contente, voejando em volta do ipê: cega-rega, cega-rega, cega-rega!”.
—  Já está ele cantando essa besteira! — queixou-se em voz baixa um pernilongo. — Mas deixa estar que não vai ser por muito tempo! A aranha já aprontou a teia no galho do sapotizeiro.
E era verdade mesmo. A noivinha cega-rega, ignorando a armadilha que lhe haviam preparado os insetos do bosque, voava com rapidez em direção ao rio. Mas antes que pudesse começar a cantar, chocou-se de frente com a teia de aranha. Não pôde mais se mexer! Os fios pegajosos envolveram-na completamente. Mais parecia uma crisálida do que uma cega-rega pequenina presa numa terrível teia de aranha!
As horas passavam lentamente para o noivo, que cantava: “cega-rega, cega-rega, por que você não vem?”. E só recebia o coaxar das rãs do rio como resposta. Sua angústia foi crescendo, quando notou que a Lua já estava muito alta e sua noiva ainda não chegara. Então se pôs a gritar desesperado:
—  Cega-rega, cega-rega, cega-rega, venha por favor!
— Ai, Esperancinha! — exclamou uma lagarta a uma esperança muito verde. — Será que não estamos cometendo um erro? Em lugar de cantar as belas canções de antes, ele está gritando tanto, que parece que vai arrebentar.
—  Imagine! Você vai ver como depois de todo esse alvoroço ele volta a cantar como a gente gosta — respondeu a esperança despreocupada.
Mas o cega-rega apaixonado não aguentava mais de tanta tristeza e começou a encher o peito para gritar com força: “cega-rega, cega-rega, cega-rega!”, pensando que ela talvez o escutasse do outro lado do rio.
—  CEEGA-REEEGAAAA! PLOC!
—  Ploc! O que foi esse ploc? — perguntou uma saúva a um bicho-carpinteiro.
—  Não sei — disse o segundo. — Vamos lá ver.
Quando chegaram ao galho do ipê onde o cega-rega vivia, viram com espanto que ele arrebentara, explodira como uma bexiga colorida.
Desde então, conta a lenda, os cega-regas cantam por amor até arrebentarem. Todos os insetos do bosque sabem disso e já não tratam de forçá-los a cantar canções para a Lua. Agora escutam com respeito o velho canto: “cega-rega, cega-rega, cega-rega...!”

sexta-feira, 18 de abril de 2014

HISTÓRIA DO DEUS SOL E A RAINHA DAS ÁGUAS

PAÍS DE ORIGEM: EQUADOR

Há muitos e muitos anos, quando deste lado do mundo não existiam outros deuses além dos astros, das forças e dos elementos naturais, o sol imperava sobre todos eles e era amo e senhor de toda a América índia.
Sua vontade era bastante para desencadear tormentas ou secar mares. Quando se lhe rendia culto, fecundava os campos e abençoava os lares. Mas ai do insensato que se atrevesse a desafiar sua ira! Nada podia esperar senão fome, frio, dor e morte.
Conta a história que o deus Sol costumava tomar a forma de um garboso chefe guerreiro para visitar suas ilhas prediletas no oceano Pacífico. E certa vez, enquanto caminhava sobre a branca espuma que as ondas estendiam sobre a areia, conseguiu divisar uma lindíssima donzela que emergia das mansas águas do mar sentada sobre a carapaça de uma tartaruga gigantesca. Ficou imediatamente seduzido por sua figura esbelta, seu talhe delicado, sua tez cobreada e fresca, seus cabelos mais negros do que a noite e a estranha doçura derramada por seus olhos cor de mel.
Cativado, pois, pela graça da jovem, o soberano dos deuses aproximou-se dela para falar-lhe. Mas, ao notar a presença estranha, a tartaruga submergiu nervosamente nas ondas verde-azuis, levando consigo a misteriosa donzela.
Ao vê-la desaparecer, o Sol ficou tão triste que chorou sem parar durante muitas horas, provocando uma descarga de sombras sobre as ilhas indefesas. Bastou uma leve insinuação do deus enfurecido, e o vento tornou-se mais intenso, rugindo horrivelmente; os furacões ameaçaram destruir toda vegetação, e as ondas, encrespadas, provocaram terríveis maremotos.
Pereceram, naquela ocasião, todos os seres humanos e a maioria dos animais que habitavam as ilhas.
As pouquíssimas espécies sobreviventes reuniram-se aterrorizadas:
—        Ai! De uma hora para outra vamos morrer! — lamentavam-se os pinguins, escondendo a cabeça entre as asas.
—        Se pelo menos pudéssemos fazer alguma coisa! — disse uma iguana.
—        É a fúria dos deuses! — chiaram as focas. — É hora de falar claro!
E o leão-marinho narrou-lhes a cena que presenciara durante essa manhã, quando, ao contemplar a saída do Sol, viu como este assumia a figura humana que desceu sobre as ilhas para, em seguida, chorar de amor pela linda donzela das águas.
—        Temos que procurar a tartaruga e pedir-lhe que volte com a jovem — disse um albatroz. — Só assim evitaremos a morte certa.
—        Hum!... — lembrou um bicudo balançando a cabeça com ar pessimista. — Tempos atrás expulsamos deste arquipélago todas as tartarugas. Elas devem guardar por nós um profundo rancor.
—        E por que não lhes pedimos perdão? — sugeriu um biguá. — E então lhes propomos compartilharem novamente as ilhas conosco.
—        E se elas não aceitarem? — perguntou um pelicano. — Puxa, que situação!
Depois de uma assembleia tensa, nomeou-se uma comissão de animais para falar com as tartarugas. Tal comissão seria presidida pelo Delfim – reputado como um dos mais inteligentes mamíferos do lugar – e integrada pelos mais velhos lagartos, baleias, caranguejos e lagostas do arquipélago. Aceita a missão, partiram à procura da tartaruga gigante.
As águas estavam escuras e turbulentas, e só depois de várias horas de árdua caminhada pelo oceano agitado, encontraram uma imensa e belíssima mansão, rodeada de jardins de corais e caminhos cintilantes, cuja estrutura de madrepérolas a fazia brilhar mais do que a Lua Cheia num céu limpo. Atravessaram vários corredores atapetados com fosforescentes algas avermelhadas e chegaram a um jardim repleto de tartarugas-do-mar. Mais adiante, guardando uma porta cravejada de pérolas, estava a tartaruga gigante.
—  Que desejam aqui? — perguntou-lhes ela com desprezo.
—  Viemos falar com você — atreveu-se a dizer o Delfim, entre humilde e temeroso.
— Que estranhas me soam as suas palavras! — exclamou a tartaruga. — Acaso se esqueceu de que há muito tempo vocês nos expulsaram das ilhas, acusando-nos de pesadas e lentas?
—  Não, não me esqueci — balbuciou o Delfim —, mas...
—  Mas o quê? — interrompeu a tartaruga.  — Não fosse a Rainha das Águas ter-nos acolhido em seus domínios, até hoje andaríamos errantes pelo arquipélago. Aqui temos vivido tranquilas até agora...
—  Por certo que têm vivido tranquilas — interveio um lagarto —, mas você poderia me garantir que têm vivido felizes?
—  Felizes?  Repetiu, pensativa, a tartaruga. — Bem, felizes não, certamente que não. Porque ficamos longe das ilhas onde nascemos. E é por isso que, de vez em quando, levadas pela saudade, subimos para contemplar a nossa antiga e querida pátria. Mas nos resignamos ao desterro!  - concluiu. — Agora deixem-nos em paz!
— Isso mesmo, vão embora! — disseram as tartarugas-do-mar, que se haviam amontoado em volta dos visitantes.
— Esperem um momento — pediu a baleia. — Nós já reconhecemos que a nossa acusação era injusta. Todos nós somos, em maior ou menor grau, pesados e lentos... para certas coisas. Mas o que queremos mesmo dizer a vocês é que não soubemos dar valor às enormes virtudes que sempre tiveram as tartarugas.
—  Essa é boa! — disse a tartaruga gigante. — Agora até virtudes nós temos...
— Claro que têm! — gritou o caranguejo. — A idade de vocês permitiu-lhes acumular a experiência e a sabedoria que falta a nós, mais jovens; transformou-as em vivazes sentinelas do arquipélago, em memória viva e símbolo de nossas ilhas.
— E o andar lento de vocês — acrescentou a lagosta — sempre nos faz lembrar que a pressa é inimiga da perfeição.
— Vocês nos fazem falta e queremos que voltem — disse o Delfim. — Se aceitarem as nossas desculpas e regressarem, batizaremos as ilhas com o nome pelo qual vocês tartarugas-do-mar são conhecidas por lá: Galápagos. E então, querem voltar as Ilhas Galápagos?
— Hum... — sussurraram as tartarugas-do-mar, ainda indecisas e com os olhos fixos na tartaruga gigante. Esta permaneceu em silêncio, e, passado um momento, disse:
— Nós não poderíamos abandonar a Rainha das Águas, que tão generosa foi conosco. Nãos seria certo.
Então a porta cravejada de pérolas se abriu e apareceu a Rainha, que ouvira tudo.
— Escutem — propôs —, vocês não devem se preocupar comigo. Podem retornar à sua pátria e virem visitar-me sempre que quiserem. Assim eu não voltarei a ficar tão só quanto antes...
— Oh, senhora — disse cerimonioso o Delfim —, lá em cima, na superfície, está um jovem guerreiro que não é outro senão o deus Sol, chorando por seu amor. E, ao não poder vê-la, espalhou sombra e convulsão por toda parte, com o apoio dos seus irmãos, o deus Raio e a deusa Tempestade. Os seres humanos morreram e nós morreremos também se ele não puder encontrá-la. Ainda que seja uma só vez, suba para vê-lo, por favor!
— Vou confessar-lhe uma coisa, meu talentoso amigo — disse a bela ninfa, corando: — eu também amo esse jovem que com frequência visita as ilhas e costuma caminhar garboso, pela praia, sobre o branco tapete de espumas. Conheço-o há bastante tempo, mas jamais permiti que ele me olhasse, até esta manhã, quando me surpreendeu observando-o... Não sabia que ele me amava e que estivesse agora sofrendo por mim. Já que vocês me pedem, irei vê-lo.
Cansado de chorar escuridões, o deus Sol adormecera com o rosto voltado para o horizonte. Mas um perfume tênue, espalhado pela brisa, inundou o ambiente com um penetrante frescor despertando-o. abriu os olhos e ela estava ali, sorrindo para ele, como na mais profunda poesia do sonho.
A história conta também que, a partir desse acontecimento, o céu que limita o arquipélago é sempre azul, limpo e luminoso; o mar é límpido e transparente; a fauna é excepcional; a paisagem é incrível e a vegetação deslumbrante.
Dizem que as tartarugas-do-mar, que retornaram às ilhas, foram agraciadas pelo deus Sol com o dom da suprema longevidade e que a tartaruga gigante ainda existe.
Segundo parece, o deus Sol casou-se com a Rainha das Águas, e os seus descendentes repovoaram as ilhas com a espécie humana, rodeando-a com encantos e maravilhas.
Afirma-se também que, desde então, a Rainha é muito feliz, porque, além de receber com frequência a visita das tartarugas-do-mar, o Sol vive com ela em seu palácio submarino. Levanta-se cedinho para iluminar a Terra e, após os últimos resplendores crepusculares, recolhe-se em seu lar, onde, entre tênues fosforescências de algas e fulgores de madrepérola, sua amada o espera eternamente.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O CACTO E O JUNCO

PAÍS DE ORIGEM: COLÔMBIA

Tintoba, um belo rapaz de vinte anos, alto e forte, com os cabelos pretos e os olhos escuros dos índios chibchas, um belo dia quis conhecer o mundo e foi embora de casa. Percorreu os verdes vales de Sogamoso, alimentou-se de maracujás em Duitama e tomou mel em Tibasosa. Fez bichinhos de barro em Ráquira, extraiu esmeraldas das rochas do Muzo, e no lago de Tota aprendeu a pescar.
Certo dia foi nadar num riacho de pedras redondas. Estava tão cansado que adormeceu debaixo de um salgueiro. Entre sonhos, ouviu vozes e risadas de mulheres que tinham ido lá para buscar água. Despertou quando a última delas, antes de se afastar, ofereceu-lhe de beber. Tintoba ficou enfeitiçado por aqueles olhos que lhe sorriam e desafiavam a negrura do carvão que ele lavrara nas minas. Bastou-lhe vê-la para ficar apaixonado.
Ela matou a sede do rapaz, mas fez nascer o amor em seu coração. Entretanto Tintoba não a seguiu de imediato. Olhando as nuvens enquanto secava ao sol sua roupa recém-lavada, pôs-se a pensar nas palavras que lhe diria.
Mas quando chegou ao povoado mais próximo, procurando por ela, ninguém soube informar-lhe nada: ele se esquecera de perguntar-lhe o nome.
Como não conseguia tirar da cabeça o brilho daquele olhar, decidiu instalar-se ali até encontrá-la. Ensinaram-lhe a trabalhar a lã e ele começou a tecer uma manta, com a qual esperava, alguma dia, presentear a amada.
Um dia, Tintoba em seu tear, entremeando lãs coloridas com suspiros de amor, quando a gritaria de umas crianças o trouxe de volta a realidade. Acabava de despontar na estrada uma rica comitiva de homens carregados de peles, plumas e jóias para a filha do cacique da aldeia. Tardaram mais os mensageiros em sair para anunciar o casamento da princesa com o poderoso cacique de outras terras do que Tintoba em sentir uma pontada no coração, ao pressentir a tragédia do seu amor. Não pôde mais se concentrar no trabalho. A alegria dos outros o incomodava. Ao entardecer, chorou sem saber por quê.
Nessa mesma noite, passeando o seu desassossego, encontrou uma bela jovem chorando, encolhida junto ao tronco de uma árvore. Ao sentir-se observada, ela levantou o rosto, e ele imediatamente reconheceu aqueles olhos. A jovem desconsolada era a mesma que um dia acalmara a sua sede. Ela lhe contou que se chamava Súnuba, que era a noiva do cacique guerreiro e que se sentia muito infeliz porque o pai a estava obrigando a se casar com um homem que ela jamais poderia amar. Tintoba compreendeu então que, quando Súnuba lhe dera água no riacho, ela também se apaixonara por ele. Desde esse momento e nesse mesmo bosque de araçás e aroeiras, beijaram-se todas as noites ao luar. Na véspera do inevitável casamento, choraram abraçados. Quando de madrugada o céu se abriu no azul da aurora e os primeiros pássaros cantaram, Tintoba despediu-se da amada jurando algum dia unir-se a ela.
Tintoba voltou à casa de seus pais; mas como não podia parar de pensar em Súnuba, um dia, desesperado, decidiu ir buscá-la. Ao chegar à casa do cacique guerreiro, disse que trazia umas esmeraldas de presente para a princesa, e os guardas o deixaram entrar.
O cacique havia partido para lutar contra outra tribo, de modo que os amantes puderam se encontrar sem preocupação. Súnuba o fez seu guarda particular para poder tê-lo sempre ao seu lado sem levantar suspeitas. Mas a felicidade se espelha no rosto, e o amor desperta invejas. Súnuba ficou mais bela do que nunca, e o guarda favorito foi surpreendido várias vezes dormindo em horas de vigilância. Começaram o falatório entre as outras mulheres do cacique e, tão logo ele voltou, vitorioso e carregado de presentes para Súnuba, elas, enciumadas, contaram-lhe o que todo o povo já sabia e desaprovava.
Súnuba foi depressa avisar Tintoba do perigo que corriam, e os dois fugiram por florestas e atalhos que poucos conheciam como ele, até chegarem ao vale onde viviam os pais de Tintoba. Ali, Súnuba aprendeu a fiar. Juntos plantaram árvores frutíferas que dariam peras suculentas e tenros pêssegos. A vida lhes sorria. Uma tarde, de volta ao trabalho, Tintoba encontrou em casa um viajante que entrara para pedir um gole de água e um banco para descansar. Mal se viram, reconheceram-se. Era um enviado do cacique que, por fim, descobrira o paradeiro dos amantes fugitivos, e que revelou imediatamente o seu segredo. Os familiares ficaram horrorizados, pois sabiam, como todo chibcha, que aquele que roubasse a mulher do outro seria duramente castigado.
Súnuba e Tintoba compareceram perante o Grande Sacerdote do Sogamoso. Ele ordenou a Súnuba que voltasse imediatamente para seu marido. Tintoba deveria oferecer sacrifícios para aplacar a ira divina. Mas antes de partir,  Súnuba pediu permissão para ir buscar suas jóias, e aproveitou a oportunidade para fugir com Tintoba.
De repente, um grande ruído retumbou no vale e a terra tremeu. Os amantes correram espavoridos morro abaixo. Em sua corrida desenfreada, Tintoba sentiu que suas pernas não lhe obedeciam mais, e, num instante, todo o seu corpo se converteu num cacto cheio de espinhos pontiagudos. Súnuba também ficou presa no pântano de uma lagoa e tomou a forma de um junco.
A terra voltou ao repouso. Hoje eles ainda estão lá; o cacto à margem da lagoa onde tremula o junco. Vêem-se mas não podem se falar.